Ivermectina não cura câncer: o alerta da Anvisa e os riscos do uso

Por Portal Saúde Confiável

16 de outubro de 2026

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou, em 15 de outubro de 2026, um alerta de checagem de fatos afirmando que a ivermectina não cura câncer. O texto, divulgado no portal da agência, responde a postagens nas redes sociais que vendem e-books e protocolos de tratamento com o antiparasitário como peça central contra tumores.

Se alguém da sua família está em tratamento oncológico e recebeu esse tipo de conteúdo, o alerta muda uma coisa concreta: não existe base regulatória nem científica para incluir a ivermectina no plano de cuidado.

Em resumo: segundo a Anvisa, a ivermectina é aprovada só para infecções por parasitas e vermes, e nenhum laboratório pediu à agência para incluir câncer na bula. Os estudos que circulam nas redes foram feitos em células e em animais, o que não prova benefício em pessoas. Quem está em tratamento não deve trocar nem somar remédios por conta própria: qualquer dúvida vai para o oncologista.

 

O que a Anvisa afirmou, ponto a ponto

O comunicado, publicado na seção de checagem do site da agência com o título Ivermectina NÃO cura câncer, reúne cinco afirmações centrais:

  • Não há evidência científica de que a ivermectina cure câncer ou qualquer doença fora das previstas na bula.
  • A indicação aprovada é o tratamento de infecções parasitárias, já que o remédio age contra várias espécies de parasitas e vermes.
  • Nenhum laboratório apresentou à Anvisa pedido ou estudo para que o medicamento passe a ter indicação oncológica.
  • Estudos in vitro (em laboratório) e em animais são etapas iniciais e, sozinhos, não comprovam eficácia terapêutica.
  • Substituir terapias comprovadas por tratamentos sem base científica reduz de forma significativa as chances de cura ou de controle da doença.

A agência também descreve o que motivou o alerta. Postagens afirmavam que ensaios clínicos já tinham começado para demonstrar segurança e benefício em pacientes com câncer e, no mesmo pacote, comercializavam e-books e protocolos com a ivermectina como “medicamento-chave”.

 

Por que um resultado em célula ou em rato não vale como prova

Segundo a Anvisa, a associação entre ivermectina e câncer começou a circular em 2019, quando pesquisas com a substância e com o mebendazol, outro antiparasitário, mostraram algum efeito contra células tumorais e em ratos. É esse tipo de achado que aparece nos vídeos e nas capas dos e-books.

O problema está no salto entre etapas. Uma substância pode matar células de câncer numa placa de laboratório em doses que seriam tóxicas para uma pessoa, ou funcionar num organismo animal e falhar no humano. A tabela abaixo mostra o que cada fase consegue, e o que não consegue, dizer.

Fase da pesquisaO que ela mostraO que ela ainda não mostra
Estudo in vitro (células em laboratório)Se a substância interfere em células tumorais isoladasSe a dose funciona no corpo humano sem causar dano
Estudo em animaisEfeito e toxicidade num organismo vivo, de outra espécieSe o resultado se repete em pessoas
Ensaios clínicos em humanos (fases 1 a 3)Segurança, dose e benefício real em pacientesSó depois da análise da agência vira indicação de bula
Registro e indicação aprovada pela AnvisaUso autorizado para aquela doença específicaNão vale para doenças fora da bula

O próprio alerta cita um número que ajuda a dimensionar essa distância. Uma análise publicada em 2024 na PLOS Biology, conduzida por pesquisadores da Universidade de Zurique, concluiu que só cerca de 5% das terapias testadas em animais chegam a obter aprovação regulatória para uso em humanos. Ou seja: de cada 20 tratamentos promissores em bichos, em média um vira remédio aprovado.

Quanto aos “ensaios clínicos em andamento” citados nas postagens, pesquisa em curso não equivale a resultado. Um estudo pode terminar mostrando que o tratamento não funciona, e só a conclusão, analisada por uma agência reguladora, autoriza mudar a bula.

 

O que muda para quem está em tratamento

Sala de hospital com duas poltronas azuis de infusão e suportes de soro
Sala de infusão usada em quimioterapia. Imagem ilustrativa. Foto: Andre / Pexels

 

O alerta da Anvisa aponta dois riscos diferentes, e vale separar um do outro.

O primeiro é a troca: o paciente abandona quimioterapia, radioterapia, imunoterapia ou cirurgia, ou adia o início delas, apostando num protocolo comprado na internet. Em câncer, tempo conta. Um tumor que poderia ser operado em determinado estágio pode deixar de ser, e essa janela não volta.

O segundo é a soma: a pessoa mantém o tratamento oficial e acrescenta a ivermectina por conta própria, sem avisar a equipe. A agência afirma que o uso de substâncias sem orientação médica pode interferir na eficácia dos tratamentos oncológicos convencionais ou intensificar efeitos colaterais.

Imagine uma paciente em quimioterapia que apresenta enjoo e alteração em exames do fígado. Se ela está tomando um comprimido que o oncologista desconhece, a equipe perde a referência para descobrir a causa e pode tomar decisões, como reduzir a dose do quimioterápico, com informação incompleta.

De acordo com o Ministério da Saúde, citado pela Anvisa, as principais modalidades reconhecidas são cirurgia oncológica, radioterapia, quimioterapia e, em casos selecionados, transplante de medula óssea, isoladas ou combinadas. A escolha depende do tipo de tumor, do estágio da doença e da condição clínica do paciente, já que existem mais de 200 tipos de câncer descritos. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) mantém páginas explicativas sobre cada uma dessas modalidades.

 

Sinais de que o e-book ou protocolo é promessa falsa

Nenhum item isolado prova golpe, mas a combinação de vários deles é um aviso forte. Desconfie quando o conteúdo:

  • promete cura, eliminação de tumor ou resultado garantido;
  • usa como prova estudos em células ou em animais, sem ensaio clínico concluído em pessoas;
  • diz que “a indústria esconde” o tratamento ou que médicos são contra porque perderiam dinheiro;
  • vende um material pago (e-book, curso, consultoria) junto com a “descoberta”;
  • ensina doses e combinações de remédios sem avaliação individual;
  • sugere parar ou adiar quimioterapia, radioterapia ou cirurgia;
  • apresenta depoimentos de pacientes como se fossem evidência científica.

Regra prática: se a fonte não é o seu médico, uma bula aprovada ou um órgão oficial de saúde, trate a informação como não confirmada até falar com a equipe que acompanha o caso.

 

Como checar a indicação de um remédio e onde denunciar

  1. Consulte o registro e a bula. O sistema de consultas da Anvisa (consultas.anvisa.gov.br) permite pesquisar medicamentos registrados e abrir a bula eletrônica. Confira a seção de indicações: se a doença não está lá, o uso para ela não foi aprovado.
  2. Procure a fonte original da notícia. Alegações sobre “estudo novo” devem trazer o nome da publicação e a fase da pesquisa. Sem isso, não há como verificar.
  3. Leve o material ao oncologista. Mostre o vídeo ou o e-book na consulta. O médico pode explicar por que aquilo não se aplica ao seu caso ou, se houver pesquisa séria, indicar um estudo clínico formal.
  4. Denuncie a propaganda. Pela página de canais de atendimento da Anvisa, é possível registrar denúncia na plataforma Fala.BR. Para informações gerais, a central atende pelo 0800 642 9782, de segunda a sexta, das 7h30 às 19h30. A vigilância sanitária do seu município também recebe denúncias.
  5. Use a ferramenta da rede social. Denuncie a publicação na própria plataforma, sem clicar em links de compra.

O mesmo raciocínio de checagem vale para outros produtos vendidos online. A Anvisa fez um alerta parecido sobre medicamentos comercializados fora dos canais regulares, tema da reportagem Anvisa proíbe canetas emagrecedoras vendidas em sites: como checar.

 

Dúvidas que estão aparecendo

 

A ivermectina é proibida?

Não. Ela é um medicamento registrado e segue indicado para infecções parasitárias, conforme a bula. O que a Anvisa afirma é que não há aprovação nem evidência para uso contra câncer.

 

Tomar “só um pouco” junto com a quimioterapia faz mal?

A agência não descreve efeitos específicos dessa combinação, mas alerta que substâncias usadas sem orientação podem interferir no tratamento e somar efeitos colaterais. Por isso, qualquer remédio, suplemento ou chá deve ser informado à equipe.

 

E o mebendazol, que aparece nos mesmos protocolos?

O alerta cita o mebendazol como outro antiparasitário estudado em células e em ratos desde 2019. A mesma lógica vale: resultado de laboratório não é indicação aprovada para câncer.

 

Existe um jeito legítimo de testar tratamentos novos?

Sim: os estudos clínicos, conduzidos com protocolo aprovado por comitê de ética e acompanhamento médico. O INCA reúne orientações sobre o tema em seu portal, e o oncologista é quem pode avaliar se existe algum estudo aberto adequado ao seu caso.

 

Se você recebeu um protocolo com ivermectina

Se você ainda não começou a usar, não compre e guarde o material para mostrar na próxima consulta. Se já começou por conta própria, não esconda: conte ao oncologista o que tomou, em que dose e desde quando, para que a equipe avalie possíveis interações. Se o conteúdo pede que você interrompa quimioterapia, radioterapia ou cirurgia, não interrompa; procure a equipe que acompanha o caso antes de qualquer mudança. E, se o protocolo chegou a um parente mais velho pelo WhatsApp, vale conversar com calma e oferecer a fonte oficial em vez de apenas desmentir.

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