Exame de sangue para Alzheimer chega ao Brasil: quem pode fazer

Por Portal Saúde Confiável

18 de outubro de 2026

O primeiro exame de sangue para apoiar o diagnóstico de Alzheimer com produtos regularizados pela Anvisa começou a ser oferecido no Brasil em 15 de outubro de 2026, no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS). O teste mede a proteína p-tau217 no sangue e tem custo estimado em cerca de R$ 3 mil na rede privada, segundo reportagens do Diário de Pernambuco e da Itatiaia.

Para famílias que convivem com a dúvida sobre esquecimentos de um parente, a novidade pode encurtar o caminho até o diagnóstico, mas não é um exame para fazer por conta própria nem para “checar” a memória de quem está bem.

Em resumo: o exame de p-tau217 é indicado para pessoas a partir de 50 anos que já têm sintomas cognitivos e estão em investigação médica. Ele depende de pedido do médico, custa cerca de R$ 3 mil e ainda não é coberto pelo SUS. O resultado não confirma demência sozinho: ele soma informação à avaliação clínica e pode evitar exames invasivos.

 

O que o exame mede, em linguagem simples

A p-tau217 é uma forma modificada da proteína tau, presente no cérebro. Os níveis dela no sangue acompanham o acúmulo de placas de beta-amiloide, uma das marcas biológicas do Alzheimer. Em outras palavras, o exame procura um sinal indireto de que essas alterações estão acontecendo no cérebro.

Até agora, para confirmar essas alterações, o caminho era a punção lombar, que retira líquido da coluna para análise, ou o PET amiloide, um exame de imagem caro e disponível em poucos centros. De acordo com o Diário de Pernambuco, o exame de sangue pode dispensar esses procedimentos em boa parte dos casos.

O neurocientista Eduardo Zimmer, responsável pela implementação no Moinhos de Vento, descreveu o teste como “uma informação adicional para apoiar o diagnóstico do médico especialista”, que deve ser lida junto com a avaliação clínica, o histórico do paciente e outros exames.

Médica com tablet conversando com paciente em consultório
O pedido do exame parte do médico que acompanha os sintomas do paciente. Imagem ilustrativa. Foto: Pexels

 

Quem tem indicação para fazer

O exame não é de triagem. Segundo a Itatiaia, ele se destina a pessoas que reúnem três condições ao mesmo tempo:

  1. idade a partir de 50 anos;
  2. sintomas cognitivos, como perda de memória recente, desorientação ou dificuldade em tarefas que antes eram simples;
  3. suspeita clínica de Alzheimer, com pedido do médico que acompanha o caso (em geral neurologista, geriatra ou psiquiatra).

Esquecimentos isolados, como não lembrar onde deixou a chave, sem outros sinais de declínio, não justificam o exame. Pessoas sem sintomas também não são o público, mesmo com histórico de Alzheimer na família.

 

Como ler o resultado sem tirar conclusões erradas

O laudo traz uma de três respostas, e cada uma tem um significado diferente:

ResultadoO que indicaPróximo passo comum
Positivosinal biológico compatível com as alterações do Alzheimero médico combina o dado com a avaliação clínica para fechar o diagnóstico
Negativobaixa probabilidade de as alterações do Alzheimer explicarem os sintomasinvestigar outras causas, como deficiência de vitaminas, depressão ou efeitos de remédios
Inconclusivovalor em faixa intermediáriaexames complementares ou novo teste de sangue após 12 meses

A faixa inconclusiva não é rara. Segundo o Diário de Pernambuco, de 15% a 20% dos testes caem nesse intervalo. Nesses casos, o médico pode pedir tomografia, análise do líquor ou repetir o exame de sangue depois de um ano.

Um resultado positivo, sozinho, não é diagnóstico de demência. Ele mostra uma alteração biológica, e é o especialista que diz se ela explica os sintomas daquele paciente.

 

Preço, cobertura e onde fazer

Por enquanto, o exame está disponível apenas no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, com valor estimado em cerca de R$ 3 mil. A Anvisa regularizou em 17 de agosto de 2026 a família de produtos usada no teste, segundo a Itatiaia.

No SUS, não há previsão de oferta. O Ministério da Saúde informou que ainda não recebeu pedido de avaliação na Conitec, a comissão que analisa a incorporação de novas tecnologias ao sistema público. O hospital planeja levar o exame ao SUS e aos planos de saúde ainda em 2026, por meio de parcerias do PROADI-SUS, mas sem data confirmada, de acordo com o Diário do Nordeste.

Não há confirmação de cobertura pelos planos de saúde no momento. Quem tiver o pedido médico pode consultar a operadora, mas deve se preparar para pagar do próprio bolso.

 

O que muda para quem cuida de alguém com sintomas

Pense em uma filha que percebe a mãe de 72 anos repetindo as mesmas perguntas e se perdendo no caminho de casa. Pelo caminho tradicional, a investigação costuma passar por consultas, testes de memória, exames de sangue de rotina, ressonância e, às vezes, punção lombar. O novo exame pode entrar nesse roteiro como um atalho para responder se há sinais biológicos do Alzheimer, sem procedimento invasivo.

Para levar a conversa ao médico com informações úteis, anote antes da consulta:

  • quando os primeiros esquecimentos apareceram e como evoluíram;
  • exemplos concretos de situações do dia a dia que ficaram difíceis;
  • todos os remédios em uso, inclusive os sem receita;
  • casos de demência na família e outras doenças, como diabetes e hipertensão.

Manter o cérebro ativo segue como recomendação geral de saúde, tema que o saudeconfiavel já explorou em O efeito do bilinguismo no cérebro e na memória.

 

Dúvidas que estão aparecendo

 

Posso pedir o exame sem consulta?

Não. O teste só é feito com solicitação de um profissional de saúde que acompanha o paciente.

 

O exame prevê se vou ter Alzheimer no futuro?

Ele foi liberado para investigar a doença em quem já tem sintomas, não para prever risco em pessoas saudáveis.

 

Precisa de jejum?

As reportagens não detalham o preparo. Confirme as orientações com o laboratório do hospital ao agendar.

 

Outros hospitais vão oferecer?

Até o momento, o Moinhos de Vento é o único citado como ofertante. Novos centros dependem de estrutura própria e de acordos com os fabricantes dos reagentes.

 

Se os esquecimentos preocupam, comece por aqui

Se você ou alguém próximo tem esquecimentos que atrapalham a rotina, o primeiro passo é uma consulta com clínico, geriatra ou neurologista, e não o exame. Se o médico suspeitar de Alzheimer e considerar o teste útil, ele vai orientar onde fazer e como interpretar. Se o resultado vier inconclusivo, não repita por conta própria: siga o intervalo indicado pelo especialista. E se o custo for um impedimento, pergunte ao médico quais exames do SUS podem avançar a investigação enquanto o teste de sangue não chega ao sistema público.

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